Aprender a ler, escrever e fazer cálculos é parte fundamental da formação escolar. Mas como preparar crianças e adolescentes para lidar com a frustração, reconhecer as próprias emoções, respeitar as diferenças e resolver conflitos?É nesse contexto que a educação socioemocional ganha espaço nas escolas, com a proposta de desenvolver habilidades que vão além do conteúdo acadêmico e ajudam os alunos a lidar com os próprios sentimentos e com as relações interpessoais.A abordagem está alinhada à BNCC (Base Nacional Comum Curricular), estabelecida pelo Ministério da Educação, que inclui, entre suas dez competências gerais, habilidades como autoconhecimento, empatia, cooperação, responsabilidade e cidadania.Em entrevista ao R7, a professora Candelária Janoni conta como a educação socioemocional entrou em sua trajetória, relembra experiências marcantes com os alunos e defende que o acolhimento também precisa fazer parte da rotina dos professores.A relação com os estudantes foi o que a levou a assumir essa função. Antes mesmo de se especializar no tema, Candelária já era procurada pelos alunos para conversar.“Eu era aquela professora que parava para escutar. Os alunos vinham conversar comigo, e até hoje lido muito com isso. Acho importante o professor conhecer a vida do aluno. Não é só o aprendizado de português e matemática.”Para a educadora, o trabalho não precisa ficar restrito a uma disciplina específica. Histórias, músicas, vídeos e situações que surgem em outras aulas também podem abrir espaço para conversas sobre sentimentos e convivência.Ao deixar uma mensagem aos colegas, a professora ressalta a importância dos educadores na formação de todas as pessoas e incentiva a continuidade do trabalho, mesmo diante dos desafios da profissão.R7: O que é educação socioemocional e como ela contribui para a formação dos alunos?Candelária: A educação socioemocional é um trabalho voltado para as emoções, a saúde mental dos alunos e a maneira como eles se expressam e se relacionam com as outras pessoas. Hoje em dia, falamos muito sobre como andam as emoções das crianças e dos adolescentes, e a escola também precisa olhar para isso.Às vezes, temos um aluno estressado ou que não consegue se expressar falando ou escrevendo. Então, procuramos outras maneiras de chegar até ele, seja pela expressão corporal, seja pelo desenho. O importante é entender o que ele está sentindo e ajudá-lo a se expressar.Quando o aluno aprende a reconhecer e nomear as próprias emoções, também passa a ter mais condições de falar sobre o que sente e procurar alguém com quem possa conversar.R7: Como você começou a trabalhar com educação socioemocional?Candelária: Na verdade, fui colocada nessa função. A coordenadora, que na época era auxiliar de coordenação, perguntou quem era a professora de quem os alunos gostavam e com quem costumavam conversar.Foi assim que me escolheram, porque eu era aquela professora que parava para escutar. Os alunos vinham conversar comigo, e até hoje lido muito com isso. Acho importante o professor conhecer a vida do aluno. Não é só o aprendizado de português e matemática.Depois, fui estudando e comecei a acrescentar técnicas ao meu trabalho. Aos poucos, fui entendendo melhor a importância da educação socioemocional e o que poderia levar para as aulas.R7: Como trabalhar empatia, cooperação e resolução de conflitos nas disciplinas tradicionais, sem uma aula específica de educação socioemocional?Candelária: A educação socioemocional permite trabalhar essas habilidades de forma interdisciplinar, em diferentes matérias. Os materiais pedagógicos também estão trazendo cada vez mais esse conteúdo.Gosto de usar histórias, por exemplo, para trabalhar a interpretação de texto e conversar sobre os sentimentos que elas despertam nos alunos e o que os leva a pensar daquela maneira. Assim, também levamos o aprendizado para o campo das emoções.Na educação física, há alunos que não sabem perder. O professor pode intervir e conversar com a turma sobre como lidar com essa situação.Mas continuo achando importante ter uma aula separada, porque ali existe um momento reservado para a escuta. Os alunos trazem conflitos que aconteceram fora da escola e querem encontrar uma solução. Para mim, o diálogo é fundamental.R7: Qual é a importância de a escola também ensinar os alunos a lidar com as próprias emoções?Candelária: Na escola, existe a socialização. Os alunos convivem com outras crianças, conhecem um pouco da vida dos colegas e aprendem a lidar com diferentes opiniões e situações.Já tive casos de crianças que me contaram que os pais tinham acabado de se separar. Acho importante que elas encontrem alguém em quem confiem e com quem possam conversar.Em casa, os pais têm suas rotinas e responsabilidades e nem sempre conseguem parar para ter esse olhar. Na escola, estamos ali para ajudar, acolher e orientar os estudantes.R7: Como a educação socioemocional ajuda os alunos a lidar com o erro, a frustração, uma nota baixa ou a comparação com os colegas?Candelária: Em uma aula de educação socioemocional, podemos formar um círculo, conversar e deixar que os alunos expressem seus sentimentos. A escuta é fundamental. Uma aluna, por exemplo, chegou para mim e disse: “Eu me dedico, mas não consigo ganhar uma medalha”. Conversamos sobre a ansiedade, porque, às vezes, a criança se prepara para uma avaliação ou uma Olimpíada, mas fica tão ansiosa que tem dificuldade para lidar com aquele momento.Por isso, gosto de começar as aulas com exercícios de respiração. Temos um peixinho da respiração, um baiacu que sobe e desce para mostrar esse movimento. Os alunos gostam tanto que até hoje me perguntam dele. Sempre incentivo a respiração antes das provas, e alguns já vieram me contar que conseguiram se concentrar melhor e controlar a ansiedade.Também trabalho com o semáforo das emoções. Explico que, assim como no trânsito, precisamos pensar antes de tomar uma atitude. O vermelho é o momento de parar, o amarelo é para pensar e respirar, e o verde é para seguir em frente. A ideia é que o aluno reflita sobre o que vai fazer e as consequências daquela atitude antes de agir. Assim, trabalhamos a frustração, a ansiedade e outras emoções. É um aprendizado para eles e para mim também. Aprendo muito com os alunos.R7: O professor também enfrenta situações desafiadoras em sala de aula. Como cuidar das próprias emoções enquanto ajuda os alunos?Candelária: É muito importante falar sobre a saúde mental do professor. Tenho participado de palestras em que esse assunto aparece bastante. Nem sempre estamos bem. A rotina é corrida e cansativa, e precisamos de espaço para falar sobre nossas próprias dificuldades.Não adianta olhar apenas para o aluno e esquecer que o professor também precisa de apoio e de um tempo para se enxergar como ser humano.Hoje, parece que a gente tem que se virar nos 30, ser artista, professor, mãe e dar conta de tudo. Por que não fazer esse trabalho também com os professores? Acho muito importante que eles sejam ouvidos e tenham apoio.R7: Que tipo de formação e suporte os professores precisam para trabalhar a educação socioemocional na escola?Candelária: O material didático é um suporte importante. Temos ferramentas que podem ser utilizadas nas aulas, mas também precisamos estar preparados para trabalhar com o que temos naquele momento.Às vezes, você preparou todo o material para aquele dia, mas o aluno traz uma situação diferente da que estava planejada. Por que não mudar a aula? Ele precisa ser ouvido naquele momento. Às vezes, o que ele precisa é de um abraço, de afeto. Você pode ter preparado tudo, mas aquilo de que ele precisava era justamente esse acolhimento. Para mim, esse é um resumo de uma aula de educação socioemocional.R7: É necessário ter uma formação específica para dar aulas de educação socioemocional?Candelária: Hoje em dia, temos cursos de pós-graduação, e eu fiz um curso totalmente voltado para a educação socioemocional. Acho importante ter a parte teórica, mas também acredito que o professor precisa trazer uma bagagem.No meu caso, trouxe para a educação socioemocional experiências de um tratamento que fiz com uma médica integrativa em um momento difícil da minha vida. Aprendi muito sobre como lidar com as emoções e sobre a respiração. Então, pensei: por que não levar isso para a parte pedagógica e transformar esse aprendizado em algo que pudesse ajudar os alunos?A teoria é importante, mas a prática é diferente. Podemos levar para a aula o conhecimento que adquirimos, mas precisamos saber como aplicá-lo em cada situação.R7: Neste Dia dos Professores, que mensagem você deixaria aos colegas sobre a importância do papel dos educadores?Candelária: Gostaria de destacar a importância do professor. Infelizmente, nem sempre somos reconhecidos e precisamos lidar com situações novas e difíceis todos os dias. Estamos ali para acrescentar, ajudar e ensinar, mas também para aprender. Gostaríamos de ter um olhar diferenciado para nós também.Tenho muito orgulho de dizer que minha mãe, Lélia, é professora aposentada. Aprendi muito com ela e fui alfabetizada por ela. Quis dar continuidade a essa história porque acredito na educação, que é a melhor herança que podemos deixar para nossos filhos.É uma profissão muito bonita, que exige amor. Sempre ouvimos que toda profissão vem de um professor, porque é preciso ser alfabetizado para seguir em frente. Não devemos desistir, mas precisamos ser mais valorizados.

Como ensinar crianças a lidar com frustrações? Novo conceito pode ajudar, diz professora
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Candelária Janoni defende a importância da educação socioemocional na formação dos alunos Arquivo pessoal
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Atividades ajudam alunos a reconhecer, identificar e expressar as próprias emoções Arquivo pessoal
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Educação socioemocional estimula habilidades como autoconhecimento e empatia Arquivo pessoal
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Relação entre professora e alunos vai além do aprendizado em sala de aula Arquivo pessoal
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